domingo, 28 de março de 2010

A CONCHA E A VIRGEM

Linda concha que passava,
Boiando por sobre o mar,
Junto a uma rocha onde estava
Triste donzela a pensar,

Perguntou-lhe: - Virgem bela,
Que fazes no teu cismar?
- E tu, pergunta a donzela.
Que fazes no teu vagar?

Responde a concha: - Formada
Por estas águas do mar,
Sou pelas águas levada,
Nem sei onde vou parar!

Responde a virgem sentida,
Que estava triste a pensar:
- Eu também vago na vida,
Como tu vagas no mar!

- Vais duma a outra das vagas,
Eu dum ao outro cismar;
Tu indolente divagas,
Eu sofro triste a cantar.

- Vais onde te leva a sorte,
Eu, onde me leva Deus:
Buscas a vida, - eu a morte;
Buscas a terra, - eu os céus!

Gonçalves Dias
ps.: Este poema está no livro: "Últimos cantos" Sua primeira edição data de l85l, na (tipografia) do sr.: Paulo Brito.

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